04 de Fevereiro de 2019

What ever happened to the future_MVallen1980_small

(Imagem: "Whatever Happened to the Future!" Mark Vallen 1980 ©)

If you don’t like change, - You’re going to hate extinction!” Lee Camp (citado neste post: https://xrblog.org/2019/01/19/its-chrysalis-time/)

Neste início de ano tenho estado mais introspectivo e não tem sido fácil trazer à escrita as muitas perplexidades que vão surgindo perante o desenrolar dos acontecimentos na minha cidade, no país e no mundo. Na verdade, as perspectivas para o futuro que se avizinha não parecem famosas – nomeadamente, em virtude da chegada ao poder de um número crescente de líderes populistas ou autocráticos em vários países (com destaque óbvio para os EUA e o Brasil), do crescimento do descontentamento social e de algum radicalismo protagonizado em particular por movimentos/partidos reaccionários ou fascistas, ou do agravamento dos extremos climáticos e das previsões mais ou menos catastróficas de relatórios internacionais recentes (como o do IPCC: https://en.wikipedia.org/wiki/Special_Report_on_Global_Warming_of_1.5_%C2%B0C) e artigos científicos sobre o estado do planeta (como aquele que ficou conhecido como ‘Hothouse Earth paper’: https://www.theguardian.com/environment/2018/aug/06/domino-effect-of-climate-events-could-push-earth-into-a-hothouse-state). No que se refere a este último aspecto, diagnósticos mais recentes parecem confirmar os cenários mais pessimistas:

https://countercurrents.org/2019/01/19/state-of-the-climate-how-the-world-warmed-in-2018/

https://www.publico.pt/2019/01/31/ciencia/noticia/planeta-extremos-40-negativos-eua-40-positivos-australia-1860194

É aliás minha convicção que a actual crise ambiental, e em particular a eminente catástrofe climática, constitui o maior desafio civilizacional que temos pela frente, mas é igualmente aquele que estamos com maiores dificuldades em encarar e resolver - não só porque está intimamente ligado ao paradigma socio-económico dominante, mas também por ser uma consequência do modo de vida insustentável de uma parte substancial da população mundial privilegiada. Voltarei a este assunto mais à frente.

Abro aqui um parêntesis para assinalar algo que pode até ser óbvio: a realidade é sempre muito mais complexa e diversa do que aquilo que conseguimos apreender. Por isso é importante ter tempo e disponibilidade mental para escutar um leque diverso de vozes e atentar a outros pontos de vista (que gosto de traduzir como ‘pedir emprestados os óculos dos outros’). A realidade parece-me pelo menos bem mais intrincada do que nos querem convencer os media convencionais e as ‘redes sociais’, que insistem em disseminar a superficialidade, o imediatismo, o sensacionalismo e as famosas ‘fake news’. E este é claramente um dos maiores entraves à tomada de consciência e à reflexão crítica por parte de largos sectores da população que, ao serem seduzidos ou enfeitiçados por aqueles poderosos meios de (des)informação, vão resvalando, voluntaria- ou involuntariamente, para a alienação, a cretinização ou a negação. Faço notar que não se trata aqui de atribuir culpas àquelas pessoas; trata-se apenas de tentar entender o que se passa para conseguir encontrar as melhores formas de estar-ser e de agir.

Por entre a enxurrada de notícias mais desanimadoras ou desmotivadoras, quase passam desapercebidas muitas outras que nos falam de outras realidades mais auspiciosas e inspiradoras. Um bom exemplo é o levantamento pela revista Quartz de acontecimentos positivos do ano 2018, que vão desde casos de sucesso de projectos ambientais ou de conservação, a projectos sociais de luta contra a pobreza ou a discriminação, até à adopção de práticas e hábitos mais sustentáveis:

https://qz.com/1501642/the-99-best-things-that-happened-in-2018/

Como se pode ler no final do artigo: “If we want to change the story of the human race in the 21st century, we need to change the stories we tell ourselves.”

Este podia ser o lema das revistas em língua inglesa ‘Yes! Magazine’ (http://www.yesmagazine.org/) e ‘Positive News’ (http://positivenews.org.uk/) que publicam durante todo o ano notícias e reportagens sobre iniciativas e projectos direccionados para a sustentabilidade ambiental e social ou para a defesa dos direitos humanos. A uma tarefa semelhante se dedica também o site do ‘Post Carbon Institute’ (https://www.postcarbon.org/) com ênfase na promoção de soluções para ultrapassar a dependência das sociedades actuais dos combustíveis fósseis e do crescimento económico, e para construir comunidades mais resilientes e sustentáveis.

Também em Portugal se publicam algumas revistas que têm como objectivo promover iniciativas e modos de vida mais sustentáveis, de que são exemplo a revista Eco123 (https://eco123.info/), a revista online Raízes Mag (https://www.ancoraverde.pt/raizes-mag/) ou o site UniPlanet (https://www.theuniplanet.com/).

Aproveito para divulgar um outro projecto nacional – “É p’ra Amanhã” - que pretende fazer um levantamento das iniciativas transformadoras ou regenerativas que já existem em Portugal, na linha do popular documentário francês ‘Amanhã/Demain’, em que está envolvido, entre outros, o jovem cineasta Pedro Serra (autor dos documentários ‘Que estranha forma de vida’ e ‘Wasted Waste’): http://www.epraamanha.pt/  https://www.facebook.com/epraamanhadoc/

Também a nível internacional têm surgido recentemente alguns documentários que retratam iniciativas diversas que procuram trilhar caminhos alternativos ao paradigma socio-económico dominante, dos quais destaco a série de seis vídeos curtos ‘This New World’ produzida pelo Huffington Post com o apoio do Presencing Institute (https://www.presencing.org/#/news/news/this-new-world-video-series), bem como o documentário ‘Utopia Revisited’ da produtora independente alemã Langbein & Partner: http://www.langbein-partner.com/home-en/detail/utopia-revisited

Recomendo ainda o site ‘Systemic Alternatives’ (com versões em três línguas: EN, FR, ES) - uma iniciativa conjunta da Fundación Solón (Bolívia), Attac-França e a ONG ‘Focus on the Global South’ (sudoeste asiático) que apresenta uma diversidade de propostas que vão do Buen Vivir ao Decrescimento (sobre os quais escrevi em posts anteriores) e ao Eco-feminismo, como caminhos complementares para uma transição eco-social justa e eficaz, e como alternativas ao capitalismo e aos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas: https://systemicalternatives.org/ - destaco em particular as excelentes infografias (nas três línguas) sobre os seis temas principais.

A possibilidade de encontrarmos uma saída colectiva para as crises interligadas que enfrentamos poderá passar por algumas das propostas que acabei de indicar, mas também implica mudanças nas práticas quotidianas a nível pessoal, que são aliás defendidas por alguns dos projectos e artigos que listei. No entanto, convém realçar que embora as mudanças individuais sejam relevantes, não serão suficientes para a profunda transformação social e cultural que será preciso empreender. Essa é a mensagem de um texto provocador do activista norte-americano Derrick Jensen, que foi adaptado pelo videasta Jordan Brown: https://youtu.be/m2TbrtCGbhQ (o texto integral pode ser lido aqui: http://www.derrickjensen.org/2009/07/forget-shorter-showers/). A postura radical de Jensen é criticada neste outro artigo que faz uma análise exaustiva daquele texto, fundamentando as várias concordâncias ou discordâncias: https://www.elephantjournal.com/2011/06/forget-shorter-showers-i-dont-think-so/

Numa crónica mais recente o jornalista português Vítor Belanciano questiona as posturas ecológicas individuais e sugere igualmente que são insuficientes para escala da mudança que será necessária para enfrentar a crise ambiental:

https://www.publico.pt/2019/01/20/opiniao/cronica/ecologia-resolvese-mudancas-habitos-individuais-1858294

Cruzei-me com outro apelo à acção colectiva ao revisitar o número de Nov/Dez de 2015 da revista canadiana Adbusters – a face mais visível de um grupo activista que contesta a sociedade de consumo desde 1989 (lançou o ‘Buy Nothing Day’ e esteve na génese do movimento ‘Occupy Wall Street’) – onde me detive no texto de um manifesto que apelava à adesão à ‘Billion People March’ e que apelidaram de ‘Manifesto for World Revolution’:

http://art-for-a-change.com/blog/2015/06/manifesto-for-world-revolution.html

http://abillionpeople.org/ Não consegui confirmar se a referida marcha se chegou a concretizar, mas esse apelo está agora a ser resgatado por novos movimentos de cidadania.

Retomo então o tema da crise ambiental, e em particular da crise climática, para destacar as iniciativas de contestação e de desobediência civil que estão surgir um pouco por todo o mundo e que têm aliás merecido algum relevo nos media convencionais a nível internacional:

BBC: https://www.bbc.co.uk/newsround/46988771

Huff Post: https://www.huffingtonpost.com/entry/the-human-survival-summit-the-next-wave-of-climate-change-protests-is-coming_us_5c4b4d8be4b0e1872d4368f4

Quero dar um destaque especial às iniciativas que têm sido protagonizadas por jovens estudantes que saíram à rua em países muito diversos e que se inspiraram nas greves à escola iniciadas em 2018 pela jovem sueca Greta Thunberg, que se arrisca a tornar a Rosa Parks do séc XXI para as questões ambientais:

https://www.publico.pt/2019/01/24/p3/noticia/ha-estudantes-faltar-aulas-protestar-alteracoes-climaticas-1859291

https://www.theguardian.com/environment/2019/jan/24/school-strikes-over-climate-change-continue-to-snowball

Suiça: https://www.esquerda.net/artigo/greve-do-clima-na-suica/59160

Alemanha: https://www.dw.com/en/climate-protests-germanys-new-green-youth-movement-takes-to-the-streets/a-47166873

A jovem Greta esteve presente em grandes cimeiras internacionais, como a COP24 na Polónia em Dez 2018 e o Fórum Económico em Davos em Jan 2019, denunciando a hipocrisia e desfaçatez das ‘elites’ mundiais, incapazes ou renitentes em agir no sentido de mitigar as crises ambientais e sociais interligadas. Entre as frases marcantes que tem proferido destaco apenas esta: “Why should we be studying for a future that soon may be no more?” A sua breve prestação na sessão plenária da COP24 ficará para a história como um dos discursos mais desassombrados, assertivos e poderosos sobre a questão climática e as suas causas profundas: https://www.youtube.com/watch?v=Xwnqy51BJNM

Como afirmou no final da sua alocução, a acção e a mudança para fazer frente à crise climática, terão de ser sistémicas, e terão de vir, não dos decisores políticos, mas dos cidadãos, onde deve residir o verdadeiro poder. Esta é também a posição defendida pelo movimento activista ‘Extinction Rebellion’ (https://xrebellion.org/), com origem no Reino Unido, que tem coordenado várias acções de protesto e de desobediência civil, e prepara várias iniciativas para o ano 2019: https://xrblog.org/2019/01/31/newsletter-12-spring-is-coming/

Estão a ser planeadas várias outras mobilizações internacionais, com destaque para uma Greve Global de jovens estudantes no dia 15 Março - Global Strike for Future:

https://www.facebook.com/Climate-Spring-for-future-304082996912097/

Evento FB: https://www.facebook.com/events/1994180377345229/

School Strike for Climate: https://www.schoolstrike4climate.com/

Video: https://www.facebook.com/304082996912097/videos/vb.304082996912097/1903740206410390/?type=2&theater

 

O ano de 2019 poderá pois vir a ser um ano de viragem na mobilização cidadã, afastando do horizonte as nuvens negras que se têm acumulado, retirando-nos assim do rumo de insustentabilidade em que o modelo sócio-económico materialista, extractivista, mercantilista e capitalista nos colocou, e conduzindo a uma redemocratização radical das sociedades, que, como escrevi no post anterior, será essencial para conseguirmos uma gestão colectiva do bem-estar e dos bens comuns que seja simultaneamente sustentável e justa. Não creio que este caminho seja fácil nem isento de dificuldades e sofrimento, pois haverá certamente resistência e relutância em implementar as mudanças drásticas que serão necessárias. Mas este é um desafio que não nos podemos dar ao luxo de perder pois a nossa sobrevivência está de facto em risco. Como afirmam os activistas do movimento ‘Extinction Rebellion’: revoltemo-nos contra a nossa própria extinção - ‘Rebel for life’!

Termino com uma afirmação do realizador Josh Fox, autor do documentário “How to let go of the world (and learn to love all the things that climate can’t change)” (2016): “(…) fall in love with what you’re doing, but do what you love in the first place. And that’s what we need if we’re going to rebuild our civilization in the face of climate change.”

https://www.yesmagazine.org/planet/climate-change-film-tells-us-how-to-let-go-of-the-world-20160603

oceans are rising and so are we_XR2019_small.png

 

Informação adicional:

 

Outros apelos à mobilização em resposta à emergência ambiental e climática:

Global Climate Emergency – apelo da “Citizens’ Campaign on the Climate Crisis (India)” (Dez 2018): https://countercurrents.org/2018/12/10/call-it-by-its-true-name-declare-global-climate-emergency-now/

Relatório “Climate Emergency Plan” do ‘Club of Rome’ (2018): https://www.clubofrome.org/2018/12/03/the-club-of-rome-launches-the-first-climate-emergency-plan/

Apelo à mobilização cidadã contra a inacção perante a crise ambiental de 100 académicos, autores e activistas mundiais (Dez 2018): https://www.theguardian.com/environment/2018/dec/09/act-now-to-prevent-an-environmental-catastrophe

We must collectively do whatever’s necessary non-violently, to persuade politicians and business leaders to relinquish their complacency and denial. Their ‘business as usual’ is no longer an option. Global citizens will no longer put up with this failure of our planetary duty.

Earth Strike 2019: https://earth-strike.com/

http://www.ecoshout.org.au/event/earth-strike-general-strike-save-planet

People Rise Up 2019!

https://www.onebillionrising.org/about/campaign/  https://popularresistance.org/

 

Excertos de texto da escritora e ambientalista norte-americana Ursula Le Guin (citados no número da revista Adbusters a que me referi neste post) – prefácio do livro ‘The Next Revolution’ de Murray Bookchin (2015):

The left/right opposition, though often an oversimplification, for two centuries was broadly useful as a description and a reminder of dynamic balance. In the twenty-first century we go on using the terms, but what is left of the Left? The failure of state communism, the quiet entrenchment of a degree of socialism in democratic governments, and the relentless rightward movement of politics driven by corporate capitalism have made much progressive thinking seem antiquated, or redundant, or illusory. The Left is marginalized in its thought, fragmented in its goals, unconfident of its ability to unite. In America particularly, the drift to the right has been so strong that mere liberalism is now the terrorist bogey that anarchism or socialism used to be, and reactionaries are called ‘moderates’.

(…) What all political and social thinking has finally been forced to face is, of course, the irreversible degradation of the environment by unrestrained industrial capitalism: the enormous fact of which science has been trying for fifty years to convince us, while technology provided us ever greater distractions from it. Every benefit industrialism and capitalism have brought us, every wonderful advance in knowledge and health and communication and comfort, casts the same fatal shadow. All we have, we have taken from the earth; and, taking with ever increasing speed and greed, we now return little but what is sterile or poisoned. Yet we can’t stop the process. A capitalist economy, by definition, lives by growth; as Bookchin observes: “For capitalism to desist from its mindless expansion would be for it to commit social suicide.” We have, essentially, chosen cancer as the model of our social system. “Capitalism’s grow-or-die imperative stands radically at odds with ecology’s imperative of interdependence and limit. The two imperatives can no longer coexist with each other; nor can any society founded on the myth that they can be reconciled hope to survive. Either we will establish an ecological society or society will go under for everyone, irrespective of his or her status.”

publicado por AFonseca às 23:58

mais sobre mim

ver perfil

seguir perfil

4 seguidores
Apoiem esta iniciativa:
Fevereiro 2019
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
22
23

24
25
26
27
28


pesquisar
 
arquivos
2019:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2018:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2017:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2016:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2015:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2014:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2013:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2012:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2011:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


2010:

 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12


blogs SAPO